Cotia Online, guia de cotia, granja, viana, osasco, carapicuíba, barueri, jandira, itapevi, embu: Tormento Tormento ================================================================================ Patrícia Laranjeira on 01/02/2010 18:40:00 Deslizamentos... Desabamentos... Desmoronamentos... Soterramentos... Alagamentos... Tormento... Em toda parte... Na Ilha Grande, lamentos... Na enseada, sonhos pelo mar a flutuar inertes, impotentes. Na terra, sonhos por entre escombros... Pois que do céu um novo mar emergiu e caiu, desabou. Grande festa seria, fogo no céu a celebrar... Grande engano, foi para anunciar a dor... E que passou do tempo de aprender, de construir e reconstruir... Paixões a rolar com a terra encharcada, com o vento uivante, gritante, berrante... Desceu o limo sorrateiro e zombeteiro e no meio, sonhos... E paixões como a deslizar pelas águas do mar que desabou do céu. Do outro lado do mundo neve que não mais encanta, frio que paralisa e desengana... Dor desmedida em Paraitinga, a avidez do Rio Jacuí, o chacoalhar impiedoso da terra no Haiti e em muitos, muitos outros lugares... Escombros, escombros. Escombros e sonhos... Sonhos interrompidos, partidos e que partiram... Encharcados... Enlameados... Afogados... Sufocados Despedaçados... Congelados... Pelos quatro cantos um canto, em uníssono lamurioso de dor... E no ar o eco de sirenes a atordoar os ouvidos e a disparar o coração de quem espera impotente, última esperança de quem precisa ou agoniza... De quem acredita... De quem ama... É tempo de aprender, de construção e reconstrução... Se fechares os olhos por um único instante é bem provável que sintas o choro não mais contido, o pavor enlouquecido, a dor lancinante, a entrega protestada e também a resignada, a perspectiva partida... Transgredida... Sofrida... Vazia... Porque os braços abertos são os da... Indefinição... E também os da construção, da reconstrução... Porque o mar não para de desabar do céu... E mar quando desaba do céu é mau agouro... O presságio de que já é tarde, pois a Terra arde. A Terra está cheia, cheia de tudo, farta de lixo, de luxo, de entulho... E quem ficou apenas vagueia por entre sujeira e corpos, pelos restos dos mares que preenchem agora os lares, os bairros, as ruas; água imunda e fétida que continua a arrastar mais sonhos para o começo do fim. Quem ficou... Desabrigado de tudo, de si mesmo. O olhar tem agora um brilho estranho, opaco, suspenso, desesperado... Para o nada. Quem ficou... Sobrevivente, mas mais sobrevivente de si mesmo e do descaso, mas não do acaso. Nada é por acaso! Quem ficou... Marcas que perdurarão a eternidade, posto que enlaçam à alma... Quem ficou... Doença, sem tempo para convalescença... Quem ficou... Saudade... Uma louca e inaudita tristeza paira no ar do mundo inteiro, porque tudo acontece nesse momento ao mesmo tempo nos cantos do mundo e toda humanidade aspira agora um gosto rascante... Sufocante... Nauseante... Porque junto à tragédia do desfecho traz à consciência da alma a exata noção dos excessos e dos extremos... Excessos e extremos capazes de emergir a fome, a guerra, a exclusão, as desgraças, capazes de fazer o mar desabar do céu... E sonhos a flutuarem inertes nos vários mares da terra, a mesma terra que os desliza impotentes pela voracidade demente não da natureza... Voracidade demente dos excessos e extremos cometidos... Sentidos... Investidos... Desmedidos... Inauditamente... Lamentavelmente, pelos próprios sonhos... A clara certeza lá na origem das idéias e bem no meio do coração, de que de fato, somos culpados... E que temos uma escolha a fazer... Somente uma: a da construção e reconstrução!