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Resiliência

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A questão é que resiliência não pode ser sinônimo de lidar com frustração, porque tal habilidade nada tem de extraordinária, faz parte da vida. Lidar com frustrações é condição básica e imprescindível para viver de forma plena, responsável e feliz

É curioso como um termo próprio de uma área específica é utilizado em outra, completamente diferente, para designar outro conceito.

Nada de errado com o empréstimo do vocábulo, não fosse o perigo que se incorre do significado não se aplicar fielmente ao que se deseja definir, tornando-se desprovido de sentido, tendo seu real significado prejudicado em um determinado contexto.

Há a semântica que averiguar mais de perto a evolução do significado das palavras... Trata-se do termo resiliência, que em física quer dizer o poder dos materiais de voltar ao estado natural depois de um choque, importado pela psicologia para designar a capacidade de superar adversidades... E ao que parece psicólogo e especialistas em educação estão adorando o novo termo em suas respectivas áreas...

Ultimamente, o termo foi empregado para conceituar, por exemplo, o bom desempenho do jogador Ronaldo, que volta a brilhar no Corinthians, depois de vivenciar períodos de adversidades. Vem sendo utilizado para designar a capacidade de lidar com frustrações e como meta da educação por pais e educadores, para a boa formação da criança, principalmente em tempos virtuais, de globalização, competição acirrada, tecnologia avançada, num mundo capitalista e imediatista.

Absolutamente nada há que se opor ao desempenho da pessoa citada, muito ao contrário, sou corintiana de coração e adoro o Fenômeno. Concordo plenamente que nossas crianças precisam urgente e tardiamente aprender a desenvolver a capacidade em lidar com frustrações, numa sociedade na qual o ter é muito mais valorizado que o ser, principalmente quando pais trabalham o dia todo.

A questão é que resiliência não pode ser sinônimo de lidar com frustração, porque tal habilidade nada tem de extraordinária, faz parte da vida, é condição básica e imprescindível para vivê-la de forma plena, responsável e feliz. Nossos filhos não devem ser considerados heróis porque entendem que não podem ter ou ser isto ou aquilo... Se, por isso são considerados resilientes e se por isso sentem-se resilientes, o que dirá de situações extremas, que de fato exijam intensa capacidade de superação? Terão disposição interna, quando por muito tempo se sentiram resilientes por tão menos? Porque tiveram que voltar mais cedo pra casa, no sábado à noite?

Se a capacidade de lidar com frustração é igual à resiliência, então resiliência nesse contexto fica desprovida de sentido ou digamos, com o sentido “fraco”. Jogar bem depois de diversas contusões, operações, aumento de peso, escândalos sociais, quando se tem dinheiro, conforto e prestígio, não é ser resiliente, também nada tem de resiliente uma criança que entende que tem deveres, que não pode ter um determinado aparelho super moderno, como a maioria de seus amigos tem.

Não há muito tempo, eu e meu filho fomos a uma excursão do colégio e pelo menos 99% de seus amigos levaram PSP, DS, celulares de última geração com seus jogos incríveis, MP5, máquinas fotográficas digitais avançadíssimas, etc., para se distraírem no ônibus durante o trajeto. Ora, é claro que para uma criança de 10 anos é uma “baita” frustração não ter qualquer um desses aparelhos quando praticamente todos a sua volta os tinham. Teve que entender que naquele momento não podia ter e que devia lidar com a situação da melhor maneira possível, sem tristeza, sem choro, sem birra, sem sofrimento, porque sofrimento está muito longe do sentimento de frustração de não ter o que se deseja.

Lidar com essa situação não fez dele uma criança resiliente, um super herói, fez dele uma criança que apenas entendeu que não se pode ter tudo o que se deseja e que isso é o que de menos pode frustrar e fazer sofrer. Começa a treinar para as frustrações maiores que a vida fatalmente lhe reserva. Entender seus deveres e suas limitações é o que tem que aprender, é sua obrigação aprender, nada de mais e é nossa obrigação ensinarmos.

Constatei orgulhosa que ali, no ônibus, usou de outras habilidades como paciência, negociação, pois teve que negociar o empréstimo de um ou outro aparelho com seus amigos, e mais, o melhor, enquanto todos jogavam, solitários em suas pequenas telas virtuais, ele conversava com o amigo do lado que acabou achando mais interessante o bate-papo, a troca, o riso... Tanto melhor para os dois...

Não se quer dizer com isso, que o termo não se aplica de jeito nenhum a ninguém. É claro que se aplica e com imensa justiça.  Em nossa sociedade não faltam exemplos de pessoas resilientes... Que compõem um quadro de desolação e penúria, a exclusão em todos os seus aspectos.

Resilientes? Ah! Os cidadãos lá do Norte e Nordeste entre outras regiões brasileiras... Assim como em vários outros lugares do mundo... Traipu, Jordão e Manari, por exemplo, são as três últimas cidades colocadas na classificação do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano, para avaliar a qualidade de vida no mundo).

Nesses lugares, isolados, afastados, de seca absoluta, se briga por água, não se conhece banheiro, nem chuveiro. São cidades campeãs na mortalidade infantil, com as menores rendas per capta do país, onde comida, digo, COMIDA, é luxo.
Nesses lugares, a tão criticada Bolsa Família é a diferença entre ter uma única refeição no dia e a fome...

Resiliente é a mãe de família que trabalha o dia todo, a noite vai para a tão sonhada faculdade e trabalha o fim de semana inteiro, digo INTEIRO, no Programa Escola da Família, como pagamento pela graduação e ainda por cima acham que o Governo é um poço de generosidade... Bem, mas esse é um assunto para outra hora.

Alguns professores são resilientes, principalmente os lá do Norte e Nordeste.
As pessoas que vivem nesses lugares são pessoas esquecidas, na verdade, muitas vezes, são como se fossem completamente inexistentes. Lamentavelmente, muitos jovens, crianças e até adultos, de classes principalmente mais abastadas, não têm idéia da existência dessas pessoas, da penosa situação em que vivem, digo, SOBREVIVEM e assim não têm parâmetros para medir o que de fato é ser resiliente.

Não há condições de vida, não há emprego, não há dinheiro, não há comida, não há perspectiva... Só um casebre no meio do nada, sem luz, sem água. Fogão de lenha às vezes tem, que espera em dias mais generosos, ser aceso para cozinhar única e exclusivamente feijão, porque em dias não tão generosos, nem sequer é aceso, porque o que se come é angu d’ água.

Sabe o que é angu d’água caro leitor? Explico: uma mistura de óleo, água e sal... Chama-se Jacuba. Imagine leitor, comer jacuba...

Ora leitor, comer jacuba num dia, dormir e acordar no outro sabendo que se comerá jacuba novamente... Isso é ser resiliente, é sentir na alma e nas vísceras a fome, a dor pela falta de perspectiva. Há que se notar que muitas pessoas que vivem essa realidade ainda têm fé em Deus e um imenso sorriso no rosto. Se existe outro termo da física ou de qualquer outra área com um significado mais forte que resiliência, aqui se aplica, emprestem para a psicologia...

É pertinente que se reflita melhor sobre o que entendemos por resiliência, para não incorrermos no erro de achar que um jogador com todas as condições do mundo e crianças sem limites sejam resilientes porque mudaram e se comportam melhor, porque aceitam melhor alguns “nãos”.

Só falta agora o Pedro Bial chamar de resilientes os brothers do BBB, já que não se cansa de chamá-los de “Nossos Heróis”... Mas, isso é também assunto para uma outra hora...

Sim, palavras são apenas palavras, mas dão vida ao que se pensa e ao que se sente. São expressões das idéias, sentimentos, crenças e valores. Não se pode usá-las apenas por serem bonitas e olha que... resiliência é uma palavra linda... Também acho... Deve-se, entretanto tomar cuidado para que ao ser utilizada, não assuma verdades que não existam de fato e que impeçam o verdadeiro crescimento. 

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Adilson felix ativo 16/12/2009 19:21:34
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Depois de ler esse texto me resta a dizer somente que voltarei aqui para ler os próximos. Sempre pertinentes e magistralmente escritos! Bravo! Ah! Fico aguardando um texto sobre o Bolsa Família, importantíssimo mas infelizmente criticado por parte da sociedade reacionária que se espelha nos BBBs e nunca se perguntou o que deve ser comer jacuba.
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